Se as crianças soubessem o quanto me desespera e que eu fico de verdade de prontidão para salvá-las do perigo, toda vez que abrem um berreiro, jamais fariam manha. Eu fico nervosa, sofro junto com o pequeno reclamante e quero agir por ele.
Alguns choros são óbvios, mas outros enganam, parece que a criança esta ligada à vida dependurada num fio com um centésimo da força do seu peso.
Agora, chegando em casa, eu quase me atirei pela vidraça da escadaria, ao pátio, para socorrer o gurizinho com um choro grosso, combinado com gritos que eu imaginei saltar dele como lanças contra o algoz.
Depois de me jogar pelos degraus, sem poder ver o que havia, chegei na porta que dá vista com os meus músculos tensos como de um guerreiro, eu estava pronta para enfrentar perigos ou aberrações.
O que vi foi um bolinho de pai, mãe, avô, irmão, vizinhozinho (da idade do irmão), um amiguinho da idade dele apavorado, batendo em retirada, mais duas vizinhas e o menino sentado numa cadeira alta, coberto por uma capa profissional de cabeleireiro.
Ele se dobrava sobre as perninhas, o choro ainda não era de raiva, ele acreditava que poderia impedir a tosquia.
Eu entendo ele.
Bom, primeiro, é criança e não sabe se expressar, expor, negociar; Segundo, eram uns cabelos bem bonitinhos, pretos, de raiz lisa e as pontas em anéis pequenos, o cabelo crescia alto, farto, parecia um boneco da cabeleira desorganizada, que veio de um vôo, ou de uma cambalhota, de uma corrida de bicicleta, do sono, era muito engraçadinho.
Eu penso que crianças pensam que o cabelo, sendo parte do corpo, se lamenta a perda. Eu lembro que sentia isto quando cortavam os meus (mesmo sempre usando bem curtinhos e porque eu queria assim curtos, eu achava lindo), eu chorava quando via o que ficava no chão, o que ficava de mim no chão. Não era o corte, mas aqueles fios de mim, descartados, como não fossem nada, só um excesso, algo bem animalzinho me deixava furiosa. Tipo homenagem às glórias do próprio corpo que fez crescer todo um cabelo e num gesto alguém me toma aquela vivacidade.
Certamente as crianças acham bizarro o fato da vida ser leve.
Os filhotes de seres humanos são frágeis e não sabem de coisa alguma sobre nada, eles sobrevivem e até crescem e se libertam salvos pelo único conhecimento: Não sei, quando sei, não sei como e se eu sei como, não sei por que. De modo que são ótimos perguntadores, curiosos, corajosos, errantes e os melhores reclamantes.
E eu sempre vou correr por seus escândalos, porque merecem crédito; E com todo gosto, ouvir o que contam, exagerados, lúdicos, sonhadores.
Outubro 1, 2009 às 5:21 pm